Deitado no divã com o peso do mundo nas costas como o titã Atlas, sentindo como um estúpido tetraplégico

Hoje foi mais uma das insuportáveis sessões no meu psicólogo.

Cheguei e ele amigavelmente me pediu para que deitasse naquele divã marrom no canto do cômodo. Eu odiava aquele divã, eu odiava as sessões, pois era quando meu psicólogo via o pior de mim e tentava fazer algo bom daquilo que me era caótico. Eu odeio psicólogos.

Deitei e bebi a água oferecia pelo meu “amiguinho” profissional. Ele aguardou pacientemente minhas lentas goladas do líquido e assim que eu terminei, perguntou:

– Então, podemos começar? Como você está se sentindo ultimamente?

– …

Era claro que eu não ia responder de cara e ele sabia que esse era o meu jeito de agir.

– Por que tens medo de falar?

– …

– Sabe, Paulo, eu nunca entendi o por que das sua sessões, de verdade. Você me aparece na porta do meu escritório, isso me leva a pensar que precisa de ajuda, mas se recusa quando eu estou disposto a ajudar. Qual é o motivo de você se deitar no meu divã e ficar olhando para o ventilador do teto, enquanto eu estou sentado aqui do seu lado aguardando que você abra a boca e assim, você poder deixar eu fazer o meu trabalho?

– Ok, eu falo, mas hoje eu gostaria de fazer a sessão de um modo diferente, pode ser?

– Olha, e não é que a porta fala. Sim, pode ser, como você gostaria de fazer a sessão?

– Eu quero que você se deite no seu divã hoje.

– Fala que é brincadeira, por favor.

– Quer me ajudar a fazer o seu trabalho? Porque hoje eu estou disposto a falar.

– Cheio de surpresas, hein? Ok, tudo bem, faço do seu jeito hoje, mas é só hoje.

– Ok, só vou precisar de hoje mesmo.

– Como assim?

– Agora eu quero que você olhe no ventilador do teto enquanto eu falo com você. Não irá dizer uma palavra e não irá interromper em nenhum momento, só vai fazer uma coisa bem simples, ouvir. Entendeu?

Concordou com a cabeça e ficou em silêncio por uns segundos, aguardando que eu começasse. Este cara só pode ser libriano, para ter uma paciência assim, deve ser a única coisa que temos em comum, afinal.

– Eu carrego o peso do mundo nas minhas costas, como Atlas foi condenado por Zeus na mitologia grega. Mas eu não acredito que eu fui condenado por um deus qualquer, acredito que esse peso foi criado por mim mesmo, sabe? Como se vivesse duas pessoas dentro de um mesmo corpo e uma discutisse com a outra o tempo todo, dizendo o que um podia fazer e o outro não. E este peso contém todos os sentimentos que existem e mais uns quinhentos que ainda podem ser criados. Amores pela metade, expectativas quebradas, solidão, saudade, ansiedade, malícia, sonhos que pararam de ser pensados, indecisão, felicidade, ciúme, inveja, medo. Sabe, Paulo, as vezes eu penso em deixar tudo de lado, deixar de lado essas aflições, deixar de lado as músicas que eu adorava e hoje me lembram de momentos que eu gostaria de não ter passado, deixar de lado o fardo dos sentimentos das pessoas que eu insisti que dividisse comigo, deixar de lado as expectativas que eu tanto criei, deixar de lado as vezes que eu me doei sem querer nada em troca, deixar de lado as inúmeras vezes que eu me machuquei por motivos bestas, deixar de lado os amores fracos, deixar de lado esse peso do mundo que eu carrego nas costas. Sabe por que? Porque eu me sinto como se esse peso todo me prendesse dentro de um quarto me deixando tetraplégico, incapaz de seguir em frente, incapaz de aceitar o convite que o mundo me dá todos os dias de ver algo diferente e essa ideia me aterroriza, me deixa tremendo de ansiedade por medo do futuro, de que as coisas alguma vez pode dar errado de novo e eu acabar preso dentro de quatro paredes, sendo martirizado pelo turbilhão de pensamentos que me vem a tona na cabeça e uma explosão maior que o próprio big bang, dentro do meu peito. Isso é meio que exaustivo, entende? Toda essa ideia me prendeu e eu perdi o maior tempo da minha vida desconfiado de coisas que eu poderia ir atrás sem problema algum. Eu não sou elogiado por ser bonito, mas sim pela minha inteligência e eu nunca fiz juz a este elogio, achei que fosse algo da cabeça das pessoas, mas talvez não seja, talvez eu devesse fazer questão sim de dar valor aos que os outros me disseram até agora e dizer adeus a este mundo pesado demais para minha costa que tanto dói e começar a dar os primeiros passos de uma vida que um dia eu sonhei em registrar em uma película.

Adeus, Paulo. Espero nunca mais te ver na minha frente e muito menos ver esse estúpido divã horrendo. Te deixo aqui um mundo que eu carreguei por milhões de anos. Eu não sou Atlas, não fui condenado por nenhum deus. Te deixo aqui um legado que eu não quero carregar mais, mas quero te fazer um pedido, deixe-o guardado em sete chaves, não quero carregar mais e isso não quer dizer que tudo isso foi em vão, pois não sou assim, guardo em mim todos os sentimentos do mundo, não quero me desfazer de quem eu fui algum dia, sem o passado eu não seria nada. Foi muito bom ter a sua companhia por todos estes anos, mas hoje eu te demito. Até mais.

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