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Dia 7.760 de infinitos dias.

Os dias, de um tempo para cá, começaram a correr mais rápido do que o normal, só que eu ainda não consigo entender se isso está acontecendo agora ou se sempre foi assim.

Devo estar dormindo a uma hora dessas, se é para eu estar consciente agora, enquanto durmo, isso quer dizer que ainda me resta alguns minutos dentro dessa loja, então vou tentar ser o mais rápido que eu poder para te escrever essa nota.

O negócio é o seguinte: Estamos perdendo muito tempo! Já fazem mais de 7.700 dias desde que nós respiramos pela primeira vez e eu ainda não encontrei uma forma de solucionar o nosso enigma.

Mas de uma coisa eu tenho certeza, como ja disse nosso amigo Carl Sagan: “Se não existe vida fora da Terra, então o universo é um grande desperdício de espaço”. Percebe o quão forte essa frase é para nós? Se não fosse o nosso primeiro choro naquela manhã do dia 28, nós seríamos um grande desperdício de espaço, seríamos apenas um peso no solo, uma fotografia guardada naquela caixa de sapato da casa da vó, um cisco de uma estrela que deu errado.

Percebe? Nada aqui para a gente é por acaso, porque se fosse, você não estaria sonhando com você mesmo para se ouvir dizendo que você sim é capaz de qualquer coisa nesse mundo e que agora o impossível é possível. Você tem uma chama tão grande dentro de si que poderia queimar toda a Roma, pare de pensar no pior da situação, você já tem o não te abraçando todas as horas do dia, faça alguma coisa a respeito antes que seja tarde demais, antes que os portões do tártaro abra novamente e leve todo o insignificante para dentro dele, como já aconteceu…

Mas agora é a hora! Estou de partida, está me restando 6 minutos antes que o seu despertador te acorde novamente, vou te deixar essa nota dentro da loja, não vou precisar te dizer exatamente onde vou deixar, é o seu subconsciente conversando com você, então vai saber onde encontrá-la.

Ah, mais uma coisa, se voltar a essa loja de novo, não suba as escadas que dão para o telhado, sei muito bem que você morre de medo de altura e sei que quando subir vai ter a brilhante ideia de pular de lá de cima. Isso vai te acordar e sabemos que trabalhamos melhor enquanto estamos sonhando.

Bom, tchau e não se deixe levar pelo que você pensa do mundo, ele é selvagem e você é apenas uma criança inocente dormindo. Nem tudo está acabado, mas se tiver, faça algo a respeito!

Deitado no divã com o peso do mundo nas costas como o titã Atlas, sentindo como um estúpido tetraplégico

Hoje foi mais uma das insuportáveis sessões no meu psicólogo.

Cheguei e ele amigavelmente me pediu para que deitasse naquele divã marrom no canto do cômodo. Eu odiava aquele divã, eu odiava as sessões, pois era quando meu psicólogo via o pior de mim e tentava fazer algo bom daquilo que me era caótico. Eu odeio psicólogos.

Deitei e bebi a água oferecia pelo meu “amiguinho” profissional. Ele aguardou pacientemente minhas lentas goladas do líquido e assim que eu terminei, perguntou:

– Então, podemos começar? Como você está se sentindo ultimamente?

– …

Era claro que eu não ia responder de cara e ele sabia que esse era o meu jeito de agir.

– Por que tens medo de falar?

– …

– Sabe, Paulo, eu nunca entendi o por que das sua sessões, de verdade. Você me aparece na porta do meu escritório, isso me leva a pensar que precisa de ajuda, mas se recusa quando eu estou disposto a ajudar. Qual é o motivo de você se deitar no meu divã e ficar olhando para o ventilador do teto, enquanto eu estou sentado aqui do seu lado aguardando que você abra a boca e assim, você poder deixar eu fazer o meu trabalho?

– Ok, eu falo, mas hoje eu gostaria de fazer a sessão de um modo diferente, pode ser?

– Olha, e não é que a porta fala. Sim, pode ser, como você gostaria de fazer a sessão?

– Eu quero que você se deite no seu divã hoje.

– Fala que é brincadeira, por favor.

– Quer me ajudar a fazer o seu trabalho? Porque hoje eu estou disposto a falar.

– Cheio de surpresas, hein? Ok, tudo bem, faço do seu jeito hoje, mas é só hoje.

– Ok, só vou precisar de hoje mesmo.

– Como assim?

– Agora eu quero que você olhe no ventilador do teto enquanto eu falo com você. Não irá dizer uma palavra e não irá interromper em nenhum momento, só vai fazer uma coisa bem simples, ouvir. Entendeu?

Concordou com a cabeça e ficou em silêncio por uns segundos, aguardando que eu começasse. Este cara só pode ser libriano, para ter uma paciência assim, deve ser a única coisa que temos em comum, afinal.

– Eu carrego o peso do mundo nas minhas costas, como Atlas foi condenado por Zeus na mitologia grega. Mas eu não acredito que eu fui condenado por um deus qualquer, acredito que esse peso foi criado por mim mesmo, sabe? Como se vivesse duas pessoas dentro de um mesmo corpo e uma discutisse com a outra o tempo todo, dizendo o que um podia fazer e o outro não. E este peso contém todos os sentimentos que existem e mais uns quinhentos que ainda podem ser criados. Amores pela metade, expectativas quebradas, solidão, saudade, ansiedade, malícia, sonhos que pararam de ser pensados, indecisão, felicidade, ciúme, inveja, medo. Sabe, Paulo, as vezes eu penso em deixar tudo de lado, deixar de lado essas aflições, deixar de lado as músicas que eu adorava e hoje me lembram de momentos que eu gostaria de não ter passado, deixar de lado o fardo dos sentimentos das pessoas que eu insisti que dividisse comigo, deixar de lado as expectativas que eu tanto criei, deixar de lado as vezes que eu me doei sem querer nada em troca, deixar de lado as inúmeras vezes que eu me machuquei por motivos bestas, deixar de lado os amores fracos, deixar de lado esse peso do mundo que eu carrego nas costas. Sabe por que? Porque eu me sinto como se esse peso todo me prendesse dentro de um quarto me deixando tetraplégico, incapaz de seguir em frente, incapaz de aceitar o convite que o mundo me dá todos os dias de ver algo diferente e essa ideia me aterroriza, me deixa tremendo de ansiedade por medo do futuro, de que as coisas alguma vez pode dar errado de novo e eu acabar preso dentro de quatro paredes, sendo martirizado pelo turbilhão de pensamentos que me vem a tona na cabeça e uma explosão maior que o próprio big bang, dentro do meu peito. Isso é meio que exaustivo, entende? Toda essa ideia me prendeu e eu perdi o maior tempo da minha vida desconfiado de coisas que eu poderia ir atrás sem problema algum. Eu não sou elogiado por ser bonito, mas sim pela minha inteligência e eu nunca fiz juz a este elogio, achei que fosse algo da cabeça das pessoas, mas talvez não seja, talvez eu devesse fazer questão sim de dar valor aos que os outros me disseram até agora e dizer adeus a este mundo pesado demais para minha costa que tanto dói e começar a dar os primeiros passos de uma vida que um dia eu sonhei em registrar em uma película.

Adeus, Paulo. Espero nunca mais te ver na minha frente e muito menos ver esse estúpido divã horrendo. Te deixo aqui um mundo que eu carreguei por milhões de anos. Eu não sou Atlas, não fui condenado por nenhum deus. Te deixo aqui um legado que eu não quero carregar mais, mas quero te fazer um pedido, deixe-o guardado em sete chaves, não quero carregar mais e isso não quer dizer que tudo isso foi em vão, pois não sou assim, guardo em mim todos os sentimentos do mundo, não quero me desfazer de quem eu fui algum dia, sem o passado eu não seria nada. Foi muito bom ter a sua companhia por todos estes anos, mas hoje eu te demito. Até mais.

chame meu advogado, esta é a noite que eu desisto.

é como viver em um campo minado
qualquer passo que se dá
pode ser o último
mas ai é que está o problema
eu sempre piso na bomba
e é como se eu fosse o café com leite
imune a todas elas
e está de pé logo em seguida
e meu próximo passo, adivinha
é a maldita bomba, de novo

talvez seja esse meu pé reto
querendo pisar em linhas tortas

ou talvez seja meu carma
alguma escolha errada do passado
e estou tendo que pagar por todas elas até o último dia
comecei a pensar que todas as escolhas foram feitas erradas
não parece algo imaginário e sim concreto
devo ter errado em todas elas

mas aqui estou
está é a noite que eu desisto
pode me algemar, se quiser
não aguento mais esse meu carma
desisto dos efeitos das escolhas
bom, acho que é isso
desisto.

Sim, prometo, se o fusca verde virar na direita.

– Está vendo aquele fusca verde logo ali?
– Uhum, o que tem ele?
– Eu quero que você me faça uma coisa.
– Ok, que coisa?
– Se esse fusca virar para a direita, eu quero que você me prometa que não vai mais falar palavrão, prometa que vai sair do seu emprego que tanto odeia, prometa que sairá mais da sua casa cheia de mofo, prometa que jogará todas as suas camisetas pretas, prometa que entrará na faculdade ano que vem e que só vai sair de lá daqui a quatro anos, prometa que vai para de procurar músicas melancólicas, prometa que irá pegar todo o seu dinheiro que você guarda naquele maldito banco e que irá viajar e comer em algum restaurante descente, prometa que irá se descolar dessa cama, prometa que irá ver o pôr do sol todos os dias, prometa que verá as estrelas á meia noite mesmo que esteja chovendo, prometa que não verá mais aqueles filmes estranhos de solidão, prometa que parará de beber esse seu vinho nojento com nome estranho, prometa que irá comprar perfumes novos e dessa vez, vê se usa, prometa que estudará, prometa que não vai mais imaginar o velório das pessoas, prometa que vai beijar aquela pessoa na primeira oportunidade que tiver, prometa que vai desligar esse computador pelo menos um mês, prometa que vai todos os dias na banca de jornal falar bom dia para aquela senhora simpática que faz palavras cruzadas, prometa que não vai mais acordar arrependido por algo que você fez, e que não fez, prometa que não vai mais se odiar tanto assim, prometa que não vai mais achar que há duas pessoas habitando um mesmo corpo, prometa que fará o melhor para você, prometa?
– Sim, prometo, se o fusca virar na direita.
– Como eu saberei que irá cumprir isso?
– Não vai, na verdade, nem eu saberei se irei cumprir, mas eu sei que esse fusca vai virar na direita.
– Como pode ter certeza?
– Eu não tenho, mas eu gosto de pensar que quem está dirigindo esse fusca verde sou eu, e eu saberei no fundo ual o caminho devo caminhar. O fusca vai virar na direita, porque eu quero cumprir com todas as promessas.

das profundezas do tártaro

zeus fez um bom trabalho
pegou-o e quebrou em mil cacos
jogou nas profundezas do tártaro
e por lá ficou por um bom tempo

eras se passaram e tudo poderia ser diferente
mas não foi, não podia ser
zeus fez um bom trabalho

eles podiam se entender,
sentar em uma mesa redonda e conversar
apenas isso
mas cá entre nós
nós, humanos, criaramos os deuses e isso não fazem deles superpoderosos e nós, meros humanos, há algo errado

zeus é poderoso e famoso
cronos vive no tártaro e é esquecido
e todos sabem da força do grande titã e temem sua volta
talvez quando ele voltar, vá diretamente falar com zeus
olhar em seus olhos de relâmpago e dizer com toda sinceridade:
“vai tomar no olho do seu cu”
e sair pela porta da frente, do mesmo jeito que entrou há anos

e a partir dali não fez mal a ninguém,
na verdade, nunca queria fazer parte daquilo,
se não fosse zeus
que fizesse um bom trabalho de foder com a vida de cronos

Me falaram que sou invisível e ainda disseram que há vantagem nisso.

Faz tempo que não te escrevo mais, não consigo nem lembrar como eu iniciava as cartas que eu lhe mandei, se eu dizia boa noite ou se já ia direto ao assunto, se eu dizia detalhadamente o que aconteceu de fato ou se já desmoronava tudo, não consigo lembrar, faz tanto tempo.

Na verdade, eu nem sei porque estou aqui nessa hora da noite para te escrever, para ser sincero, quis conversar com alguém, não me sentir tão invisível o tempo todo, me fazer lembrar que eu não quero entender todo mundo e aceitar isso comigo, para eu lembrar que eu ainda não morri e que tenho minha própria vida para viver e que há a possibilidade das pessoas também me entenderem e levar isso consigo mesmas, porque ao mesmo tempo que eu e você somos diferentes, somos exatamente iguais, sofremos das mesmas dores, temos as mesmas aflições, sentimos penas do mesmo amor, temos medo da própria espécie.

Eu quero te dizer que faz tempo que eu cresci, só que não tinha percebido até o então. Vai chover lá fora daqui a uns 14 minutos e eu não sinto vontade de chorar, nem daquela sensação de me jogar na cama e me sentir triste até dormir, acordar no meio da noite e voltar a dormir. Talvez o problema desse tempo todo foi admitir, admitir que algum dia vamos todos morrer e que não tenhamos feito tudo aquilo que queríamos, aquela velha história do carpe diem ao contrário, do não viver, da mesmice. Admitir que gostamos de rosa, admitir que eu não sou melhor que o Bon Jovi, admitir que meu colega de trabalho é melhor nessa função do que eu, admitir que eu gosto de alguém, admitir que não serei um bom amigo para sempre. E se for parar para pensar, se deixarmos nos admitir é bem mais fácil, sem crise alguma, sem problema para levar na cama antes de dormir, admitir que somos todos iguais independente se eu sou homem ou mulher e que gosta de pudim com pizza, na verdade, criamos tantos problemas para tentarmos resolver que esquecemos que podemos juntar soluções e assim viver. Nada dessa vida importa, admita isso.

Ah! e se for para mudar o título dessa história, com certeza seria as desvantagens de ser invisível

Com amor, Charlie.

domingos

lígia marcomini <3

lígia marcomini ❤

é um domingo qualquer do pior mês do ano, acordei cedo porque eu acostumei a acordar as 6:21 toda manhã, respirei fundo e continuei a ter a minha vida como todos os outros dias em 19 anos. liguei a tv e terminei a série que eu estava acompanhando, fiquei feliz porque quando chega no final de alguma coisa eu entendo o que o criador quis passar em diante, eu consigo pensar exatamente o que essa pessoa pensou em algum momento da sua vida e eu acho que eu tenho um dom que deus quis me dar, sei lá, talvez ele estava de bom humor.

a protagonista era a linden, uma detetive qualquer que tinha problemas quando entrava em um caso dificil, porque era ai que ela ficava encacucada com o caso ao mesmo tempo que tinha que lidar com seus próprios problemas em ter uma vida social com seu parceiro, seu filho, suas amigas. era tudo muito dificil, tinha que fugir dela mesma. até que chegou um dia em que disse adeus para tudo aquilo e saiu pela portas dos fundos, saiu simplesmente, uns quatro anos depois ela voltou para a sua cidade e foi reencontrar seu parceiro e ela estava com uma cara ótima, parecia uma manhã radiante depois de uma noite com tempestade. eles não se falaram muito, mas deu para entender que nem tudo é preciso ser dito, você simplesmente entende e guarda isso para si mesmo.

foi nesse momento que eu percebi que meu domingo do pior mês do ano não era somente um domingo, minha mãe fez nhoque e eu amo nhoque. mas essa não foi a melhor parte, a melhor parte foi quando baixou o filósofo em mim e disse “cara! ouve essa” era uma música que se chama take me to church (leve-me à igreja, (combina muito comigo)) e as primeiras palavras já eram 
Meu amor tem humor
Ela é a risada num funeral
Sabe que todos desaprovam”
eu já dei aquela risadinha e disse: “acho que estão me observando”, sabe essas pessoas que desaprovam? não são ninguém comparadas ao seu pior inimigo que é você mesmo. e foi esse inimigo que eu tive o desprazer de conhecer logo cedo, me deixando de castigo o tempo todo naquele quarto mofado durante tanto tempo, uma infância jogada fora, pessoas que deixei de conhecer por esse inimigo, tempo perdido, até que esse monstro percebeu o tamanho estrago que causou e que mesmo assim teve pessoas que eram para te desaprovar, mas que estavam ali te dizendo que te ama (até os que não disseram isso, mas que não precisavam) e ele deu aquele simples sorriso bobo e tudo pareceu estar bem, dívida paga com simplesmente nada, era de uma confirmação que precisava, de uma aceitação.

e foi aí que deu tudo certo no final, um domingo qualquer no pior mês do ano. entendi como funcionam as coisas, um dia você está uma tempestade, no outro está um dia radiante, um dia você odeia, no outro ama. um dia você desaparece, no outro surge com um sorriso e você guarda tudo isso para si mesmo, porque faz parte de quem você é e isso nada ou ninguém pode te tirar. aliás, eu não sou deus e deus não é quem eu sou, take me to church